quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Espelho

Enquanto secava o cabelo em frente ao espelho, reparei as marcas de cigarro na face refletida. Nao tinha vestígios do gosto amargo, nem havia fumaça no ar. Meu quarto estava quase limpo, quase organizado, como sempre. Sem cigarros no cinzeiro. A lixeira estava com papel de chocolate e eu via a imagem pelo espelho.
Larguei o secador de cabelo e a escova, peguei uma almofada para sentar no chão em frente ao espelho. Tinha ou manchas de ferrugem, ou de alguma coisa do tipo envelhecido o espelho e as manchas na maçã do meu rosto. Ou aquilo ou isso.
Reparei no formato da minha boca. Quando séria fica pequena com um pequeno corte nos cantos, formando um leve sorriso para cima. Mesmo séria pareço sorrir de canto. De boca sorrindo o rasgo emburaca, sumindo os cantos, mostrando os labios esticados, grandes com os dentes também grandes. E o canto nao sorri tanto quanto os lábios, ao contrário de quando fico séria.
E o nariz? Sempre encasquetei com o tamanho das narinas. “Nariz de apagar vela. Nariz que vai sugar todo o ar. Narina de camelo. Narina de dragão”. Ih, já ouvi de tudo quando era criança. Já ouvi até cantada “mulher de narina assim demonstra poder, é bem decidida, é forte”, e por ai vai. Na verdade, agora que tenho 24 anos, percebo o meu nariz como um bom complemento para o meu rosto, porque tenho um sorriso grande, com dentes grandes, olhos grandes e poxa, não poderia ter um nariz pequenino e com narinas pequeninas. Não combinaria. Talvez eu tenha mesmo poder, decisão e seja forte! Risos.
Tocados meus olhos, saiba: é uma das partes que mais gosto no meu corpo. São grandes como já citado e mudam de cor conforme a luz, os cílios são longos e bem separados. Expressivos ao extremo, o canto dos meus olhos também parece sorrir mas com uma ponta de desconfiança. Muita gente repara no meu jeito de olhar, dizem que olho pelos cantos, sem mexer a cabeça. Risos. Comentam as pessoas, as pessoas comentam.
Acho que neste pequeno gesto de me olhar, de me perceber, senti mais do que sou naquele momento e quando voltei a secar os cabelos, depois de 3 minutos talvez, já estava me refletindo no espelho e em todas as outras coisas e pessoas, de uma maneira bem diferente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Vida do outro

Colocar a caneta na boca e sentir o gosto do café da outra boca. Boca esta que já havia mastigado o fundilho da mesma caneta. É como olhar pela janela antes observada e aprender a ver com os olhos do outro. Apreciar a mesma manhã, a mesma neblina, o mesmo orvalho, a mesma cor amarela do caminho de flores que dão no poço. Conversar com a violeta posta em cima da mesa, as mesmas palavras proferidas pela outra pessoa. Caminhar pela mesma Via. Atravessar no mesmo sinal todo dia. Encarar o reflexo do mesmo espelho e já não mais se encontrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O bloquinho

O bloquinho de idéias pode ser desfeito com uma marreta absurdamente material.

Subindo do alicerce empírico para a imaginação da cobertura.
Produzido sustenta quilos de idéias.
O bloco constrói com seus poros.
Pintura massa.
Caneta papel.
A porosidade planta da idéia.
Se desfaz com o atrito dos dedos.
O bloquinho memoriza a energia residual esquecida, adormecida.


Para a imaginação da cobertura.
sustentar quilos de idéias.
Constrói com seus poros.
o atrito dos dedos.
a energia residual esquecida
adormecida. subindo do alicerce empírico
Produzindo a porosidade plantada
idéia se desfaz
e o bloquinho memoriza


O blo constrói com seus pós.
A idade porosa da idéia.
Planta do empírico na imaginação coberta de alicerce
O bloquinho adormecido esquece a energia
Pintura massa.caneta papel.
Residual produz idéias a quilos
Sustentados se desfaz
o atrito dos dedos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Umbral

Recipiente de mortos
Sangue vidro dentro
corpo de aborto
Esfaqueia a barriga
Retira resto de rosto
deformado
Banha de cima
Escorre do meio
Parte insana de tudo perdido
Desliza a porta
vê-se no box o corpo caído
chorando à memoria
Abraça o desconforto
Prende a loucura
de mais um filho
vísceras

segunda-feira, 9 de março de 2009

Baseado no pesadelo dia 28_fev_09

Agonia
(título original do sonho: O encosto)

Morreu com o corpo inchado. Uma voz saia de algum lugar que ele nao sabia de onde. E era dele.
Ela ouvia tudo o que ele falava na escuridao profunda, perdido sem saber como voltar.
Ele tinha medo e queria assusta-la com o seu rosto gélido. Aparecia toda vez que ela tomava uma coca-zero,
sentia dor no pulmao esquerdo e do coracao uma ferida sangrenta que vazava muita dor e ódio.
Ele gritava com a cara na câmera, tudo preto em volta. Como flashes de seu corpo vindo na direcao de Carolina, num terrível contra-luz.
Ela nao queria mais dormir, nao queria mais sonhar com nada, nem sentir sua presenca por perto ou ouvir aqueles gritos
na camara escura.
Ela nao dormiu nunca mais.
Ele nao reviveu.
E assim viveram o eterno companheirismo da morte.

Ela sentou do lado do corpo transparente, segurou a mão do cadaver imaginando estar quente.
Aqueceu sua alma imaginar seu amigo vivo e então abriu um abismo espelhado na esfera do tempo.
Permaneceu ali até ver a luz no fim do tunel. Ele nao parou um segundo de sentir ódio.
Ela estremeceu quando abriu os olhos e o viu de perto encarando seus olhos.
Ele inchava e desinchava o rosto, queria voltar ao corpo, comer massas, ser testemunha ocular da historia.
Não percebia que nao estava mais onde esteve, que nao era mais ele, mas sim o que restou de suas imagens e lembraças alheias.


Permanecia muda Carolina medonha.
Gemia a dor nao esquecida da Pessoa que estava agora entendendo que sua missao acabara.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A filha que ainda não tive

A filha que ainda não tive

Telefonaram-me 17 e tantas da tarde. Vesti-me de branco, o que quase nunca faço. Lavei as mãos como sempre faço. Com o toque suave dos dedos apertei a testa, olhando-me no espelho refleti lentamente sobre os fatos. Minha avó estava pronta para morrer, deitada singelamente em sua caminha macia, enfeitado com as margaridas que eu havia levado pela manhã, o criado mudo de ferro.
Fiquei em pé por alguns minutos, encostada no portal observando sua respiração leve. De plumas respirantes no quarto jazia uma mácula desconhecida. Acompanhei passo a inspiração, passo a expiração daquela que um dia concebeu minha mãe.
– Olá, avó.
Yaya não se mexeu. Yaya demonstrou carinho com seu rostinho pálido, me deixando segurar sua mãozinha fria de veias aparentes. Com as mãos feito conchas, planei a energia em cima de seu corpo, uma na cabeça e outra no peito, traduzindo luz em uma única ação.
– Yaya, vou te contar uma história.

“O nome da minha filha será Morgana. Se for do Artur se chamará Fernando. Se for de Fernando se chamará Artur. Eu queria os dois nomes, porque teria dois filhos. Mas fui cair na besteira de me apaixonar pelos dois, ao mesmo tempo. Vai ser uma menina. Agora é a vez da escorpiana Morgana. Terá sobrancelhas pretinhas e cabelo escorrido, preto também. Meu olhos, o nariz do Fernando, a altura de Artur, e a inteligência de nós três, somada. Será uma menina nerd e gostosa para enlouquecer a mãe. Nascerá saudável, e manter-se-á saudável como uma índia até sua morte. Sem fé e muita coragem. Yaya, estou tentando profetizar minha filha imaginária, por isso, trate de ficar viva até lá, para você ver só o meu dom. Ela vai ter um império, os homens derramarão lagrimas por ela. Será rica, dona de alguma coisa grande. Morgana vai gargalhar e contagiar toda a cidade, será sensual, possuirá um riso de canto de boca, dentes grandes como os meus, mas ela não vai fumar, então, serão brancos. Também não come carne, mas toma uma birita de quando em vez, e provavelmente a bebida será vinho tinto suave. Vai dar preferência ao frio, como eu. Mas, vai gostar de nadar na praia, como os pais...”

E assim, minha avó não abriu os olhos para ver minha última imagem. Não respirou profundamente para simbolizar um adeus enquanto estive com as mãos repousadas sutilmente em seu corpo. Yaya viajou para a brancura sem ao menos esticar as pestanas. Ela foi para mim o que um dia minha filha será.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pô, Ema!!!

E o pai dele morreu
triste estou e
nem posso afogar-me
to vendo o mundo
em slow motion